• Artes literárias

    O fio tênue

    Éramos inseparáveis, embora discutíssemos amiúde. Tínhamos muitas inconstâncias, por isso alguns não compreendiam nossa oscilação de humor e conjecturas. Era essa multiplicidade, porém, que nos livrava do enfado de sentir sempre as mesmas emoções.

    Ela era minha alegria, enquanto meu coração era triste. Ela era meu último fio de fé quando eu já não acreditava em nada. Era quem me chacoalhava quando o pessimismo mantinha-me com a cara no asfalto. 

    Mas ela perdeu o gosto da vida. Temi tê-la vencido com minha amargura. Porém ela disse que apenas se cansou. Da luta. Da esperança tola por dias melhores que não vieram. Justo ela! 

    Constatou que a vida era longa demais e me revelou que estava exaurida da jornada. Eu simplesmente não quis julgá-la, pois não se pode forçar o amor, e ela já não amava mais a vida. Tinha uma dor constante no peito e desejou que a vida lhe desligasse os aparelhos e o zigzag cessasse. Sim, justamente ela, a criança, a mulher, a melhor parte de mim. 

    E foi então que senti meu coração silenciar. Um zumbido fino, o ar invadindo o corpo mais uma vez, pedindo para não ser expulso. Mas não podíamos respirar a realidade. Sem altos e baixos, sem variação das ondas. Apenas uma linha reta agora. Remanso…

  • Artes literárias

    Vestida de rainha

    Imagem Pixabay.com

    Voltou-se para dentro de si mesma e se escondeu das suas verdades. Tapou os ouvidos, cantarolando bobagens. Como criança birrenta, disse não ao esposo, disse não ao chefe, disse não às vozes da balbúrdia externa.

    Uma abóbora gigante surgiu e afundou-se como Cinderela, entorpeceu-se como Alice. Depois de tanto delírio, adormeceu Bela, mas não esperou que o príncipe a acordasse, preferindo usar o despertador. 

    Gozou de suas irmãs cruéis que nada mais eram que fragmentos de si mesma maltratando-se para recorrer à autopiedade.

    Piedade!, gritou. Não para o alto, não para um deus que não conhecia, gritou para o próprio eco de sua alma. 

    Vista o tamanho correto, gritou a comida que ela regurgitou.  Respeite as regras de etiqueta, gritou a roupa que despiu rompendo o fecho da ditadura do corpo. Tomou posse do seu.

    Abriu a janela da torre e desceu prendendo-se às garras que escondera. Deu o cano no príncipe e partiu consigo mesma.

    Espelho, espelho meu, disse em ladainha, existe alguém mais livre do que eu? E riu-se, entorpecida, vestida de rainha.

  • Artes literárias

    Desassossegos da quarentena

    Imagem de KLEITON Santos por Pixabay 

    Trancou-se em casa com seu silêncio. Cerrou portas e janelas, encerrou contratos e adiou prazos. Espiou a rua pela fresta da cortina: os vizinhos também se trancaram, as ruas receberam apenas folhas dançantes trazidas pelo vento. As casas fingiam-se de mortas, espiando a coagida mansidão do lado de fora. A vida pareceu se calar alguns instantes.

    No prédio de quatro andares onde morava, os corredores sussurravam palavras incompreensíveis e não mais os passos insistentes, incessantes, dissonantes. Desejou muitas vezes aquele silêncio, sim, desejou impacientemente. 

    Sentou-se atenta e engoliu as mortes anunciadas pela TV. Então sentiu o medo sentar-se ao seu lado e se encolheu no canto do sofá para lhe dar lugar. Porém ele foi se instalando sorrateiro, arrastando-se pelas paredes, espalhando-se pelas almofadas, derramando-se no carpê. Viu quando escapou pelos beirais da porta.

    Calou a TV, mas o mundo virtual escapou da tela e as vozes foram ficando cada vez mais audíveis em sua mente. Calou as redes sociais, pois percebeu que o vírus era também virtual, de modo que foi atingida pelo ódio, pelas contendas, e levantou-se zonza pelos golpes recebidos. Calou a palavra. Silenciou de vez.

    Começou a ficar angustiada com a solidão, pois o esposo nunca vinha. E, por um surto de segundos, esqueceu que ele nunca viera, pois nunca mais se entregara ao amor. O amor é para tolos, decidiu depois da última espera, depois da última morte de sentimentos. 

    O passar dos dias em isolamento aproximou desavisados e revelou verdades dissimuladas. O álcool entrou nas casas, entrou ainda em maior quantidade em goladas, subiu enlouquecido em mentes já transtornadas. À certa altura, as paredes não mais sussurravam, mas deixavam escapar gritos ensandecidos do casal do quarto andar. Pensou ter ouvido um pedido de socorro, mas convenceu a si mesma que estava ouvindo demais. Quem sabe um grito abafado? Devia averiguar? Sim, questionou-se, mas temeu que o vírus pudesse invadir ínfimas brechas e calou a voz que quis clamar por justiça.

    O isolamento não acabou, mas a vizinha sim, sufocada por seu agressor. Desconfiou pelo movimento no prédio, confirmou pela circular por debaixo da porta, a que se abaixou para ler com medo de tocar o papel. Caminhou de um lado para outro e correu lavar as mãos. A partir daquele dia, as paredes sussurravam sangue em seu ouvido, e lavava as mãos constantemente. Covarde, dizia-lhe uma voz latente no seu silêncio. Calou a consciência e foi lavar as mãos outra vez. Podia ter agido, mas não agiu, gritaram as paredes. Podia ter sentido, mas não sentiu. Calou a empatia. E foi novamente lavar as mãos.

    Nesse meio tempo, não soube mais do vizinho do andar de baixo. Era um rapaz solitário, esquisito, que ela evitava. Ele talvez estivesse tão sozinho quanto ela, pensou, mas teve preguiça de carregar mais um peso. Calou a voz da solidariedade e ouviu apenas um estampido.

    Não soube de mais ninguém, esquecia-se das refeições, seus raciocínios eram inexatos. Há quanto tempo estava trancada mesmo?, ela às vezes se perguntava. E por quê? Não sabia quanto tempo se havia passado, mas compreendeu que ninguém dela se lembrara. Pensou que, um dia, esqueceriam a vizinha morta também, pois viriam outras, e outros agressores e outros gritos sufocados, transformados em silêncio. Lembrou-se do jovem solitário que logo também passaria apenas a fazer parte das estatísticas. Lavou as mãos com muita força de dessa vez, e a água quente fez com que a pele descamasse, como ela própria se sentia descamando em partículas de si mesma se perdiam todos os dias. 

    Já não sabia por que estava isolada. E, por isso, desceu em direção à rua. Antes de alcançar a porta do prédio, lembrou-se do senhor que morava sozinho no primeiro andar. Parou em frente à porta, fez menção de bater, mas acovardou-se em sua egoísta platitude. E calou a oportunidade de redenção.

    A guerra acabou, disse a si mesma, sem saber quem havia vencido, pois não lembrava mais qualquer motivo para tanta escuridão. Não reconheceu aquela cidade, o mundo havia acabado. Não para a humanidade, mas para ela, cuja mente rompeu-se em bolhas fatigantes de distorcidos raciocínios que já não mais se conectavam. Foi apenas mais uma, a quarta moradora de um prédio qualquer, a romper a barreira da sanidade nos desassossegos da quarentena.

    Imagem de:  Gerd Altmann por Pixabay 

    O conto “Desassossegos da quarentena” foi classificado no concurso Neplli da UFPR de Palmas 2020, e lançado nos livros “Poéticas de SerTão: diálogos literários em sala de aula” e “Literatura em Pandemia“.

  • Artes literárias

    Do que não vivi

    Imagem por Pixabay.com
    Hoje senti saudade de tudo que não vivi.
    Da mãe que não tive, dos irmãos que não me acolheram,
    das mãos que não se estenderam.
    Senti saudade do filho que não peguei no colo,
    do amor que não provei, daquela que não me olhou nos olhos,
    não disse eu te amo.
    Hoje senti saudade da história que não contei,
    do amigo que não abracei,
    dos sonhos que não persegui.
    Hoje senti saudade da vida que deixei de viver
    enquanto lamentava pela vida que estava vivendo
    Senti saudade do tempo que não se alcança mais,
    pois o caminho deixado para trás
    é mais longo que o que me falta trilhar
    Hora de partir. Romper os laços que me restam
    na fragilidade no tempo que não se deteve
    Na garganta, o nó da palavra silenciada
    Na alma, o fel do colo arrancado 
    No instante, a vazio do êxito não provado.
    
    
  • Artes literárias

    A felicidade é um momento

    Imagem de: Free-photos Pixabay
    Hoje eu sou feliz. Não, eu não sou feliz todos os dias,
    Mas hoje é um espaço no tempo em que mergulho e decido: 
    Hoje sou feliz.
    Não é meu dia de trabalho, é domingo, mas poderia ser segunda
    Eu só preciso de um momento, um instante para um acalanto
    Um descanso da alma. Um segundo para sorrir por nada!
    Neste segundo, eu sou feliz.
    Assopro as feridas, aqueço o coração na música que ouço,
    Na voz que  liberto.
    Acolho os desacertos, guardo a lição na lágrima escondida, 
    No riso morto.
    E liberto na palavra que viaja no tempo surdo, no coração da moça
    Na estrada torta do homem cansado.
    Eu só preciso de um instante. Pode ser em agosto, ou a gosto.
    Isso ocorreu quando percebi que a vida é cada instante,
    Nenhuma felicidade é permanente!
    Por isso hoje sou feliz, talvez não o hoje todo, 
    Talvez apenas neste segundo.
    Nesta felicidade em que mergulho e decido:
    Neste segundo, eu sou feliz!
    
    Texto de: Luciane Monteiro

    Descubra o seu momento de felicidade. Ninguém é feliz o tempo todo. Para mim, a felicidade são momentos. Qual é o seu momento? É durante a dança, a chuva, o silêncio? Quem sabe, no almoço em família, no beijo de amor, no abraço de amigo? Porventura na oração, meditação, no devaneio? Mergulhe no seu momento de ser feliz e colecione momentos de felicidade plena!

     

  • Artes literárias

    O tempo que espere

    Imagem por Pixabay.com

    Não, ela não estava apegada, queria apenas uma pegada diferente. Cansou-se de indiferenças e partiu sem norte com seu chapéu. Proteção, dizia. Proteger a mente do sol escaldante da raiva que de vez em quando fervilhava. Caminhou despreocupada pelos anos em curso que lhe discursavam mentiras a respeito do tempo. O tempo que espere, dizia, agitada. Ai, que não me perco de mim antes de sair da sombra!, gritava e, ventando-se dispersa, dava voltas em redemoinhos, pisando de não em não até encontrar seu sim. 

    Foi num domingo qualquer, próximo às gôndolas de Veneza, ou seriam as ruínas do castelo de Menlo? Não, provavelmente no Jardim Champ de Mars. O lugar não importava, rabiscava-os em pano de fundo quando fechava os olhos. Foi uma troca de olhares, mas o encontro foi de almas, de aromas, de tempos que se desprenderam da espera.

    Despiu-se do chapéu e de pudores, e o relógio correu em reverso, restaurando-lhe a juventude arranhada. Celebrou no céu da Capadócia antes do suspiro extasiado sobre os lençóis brancos.

    Imagem por Pixabay.com

  • Artes literárias

    Olá, leitores

    Bem-vindos! Nesta página compartilho meu lado autora, sustento de uma alma em devaneios! Aqui conto minha história, divido alguns escritos. Aqui, sou eu escritora, mergulhando no universo abstrato da palavra e da inquietude humana.

    Escrever é quase um vício. Um conto é uma boa dose de adrenalina, uma história mais longa é um presente, quase um filho. Literário! Não é fácil escrever um livro. Demanda tempo, inspiração, pesquisa. Exige desejo, urgência, paixão! É preciso “dar à luz” um sujeito, com ou sem nome, mas com personalidade própria. Pensar o que ele faz, como pensa, qual é a sua aparência.

    E ir ainda mais fundo: descobrir quais são suas angústias e desassossegos! Sentir suas dores enquanto as coloca no papel…

    A recompensa? A recompensa é o leitor! É a reação provocada. Quando você lê um livro, um mundo se abre, personagens ganham vidas e saem do papel para abraçar o mundo de um leitor. Leia o texto completo.