Artes literárias

A outra brecha

Image by vLADISLAV1989 from Pixabay 

Quando eu era criança, quase me afoguei no mar, arrastada por uma onda um pouco grande para uma menina de quatro anos. Nada muito grave, fora o susto e o assombro do que vi: uma janela. Sim, tenho certeza que era uma janela, mas ninguém acreditaria.

A partir dali,  passei a buscar brechas no tempo, entradas disfarçadas em espaços incompreensíveis da existência. Basta um sopro inquietante no ar, um movimento diferente das folhas no chão, e sei que ela está lá: a brecha, esperando para ser descoberta. Às vezes, basta fechar os olhos e apagar a mente para o tempo que se move, movendo a alma para o tempo que se desfez apenas diante de nós, mas se fixou no espaço. Neste espaço invisível ao nosso ingênuo olhar.

Foi assim que fiz minha primeira viagem para um tempo que não vivi, dancei com meu pai uma dança que não conheci, revivendo sensações que me eram familiares: o amor!

Tornei a abrir a brecha e fui parar no Isle of Wight Festival, em 1970, com The Doors tomando o palco. Quando vi, estava movendo os quadris ao som de “Light my fire”. Era um ritmo tão envolvente que não precisava de qualquer entorpecente para me sentir entorpecida pelo prazer da dança. A experiência foi intensa, e durou inacreditáveis treze minutos e quarenta e sete segundos. Recusei-me a voltar ao presente e, como estava em um ano que não vivi, avancei ainda mais longe e, desta vez, fui parar no Cavern Club, em 1962, dançando com os Beatles.

Estava adorando estas viagens, embora durassem pouco. Porém, a mais extasiante foi quando coloquei “Call me” e respondi um chamado aos anos oitenta. O clima esquentou com “One day or another”, mas se acalmou com “Love is in the air”. Foi, então, que reconheci a escrivaninha de madeira na qual eu subia para fingir que estava numa pista de dança. 

Olhei ao redor, e um dos meus irmãos estava lá com com seus amigos, mas não se incomodaram com minha presença. Ele ainda tinha os cabelos cacheados da moda e apenas dezessete anos. Que idade linda! Todos o adoravam, ele vivia inventando criancices que amávamos. Era meu ídolo, embora tenha me ensinado a ser passional e sofredora, a ponto de chorar com músicas tristes até hoje. Aquele sofrimento bom e ruim ao mesmo tempo, sabe? Bem, só pessoas nostálgicas, como nós dois, entendem isso. Mas éramos assim, nostálgicos, infantis dos três aos trinta, e assim por diante, sem entender a necessidade de crescer. 

Meu outro irmão entrou no quarto minutos depois, com seus quinze anos e um disco do Michael Jackson na mão. Ele era igualmente bonito, e eu já estava acostumada a ter novas amigas que se aproximavam de mim para se aproximar, na verdade, dele. Eu o amava, embora ele representasse todo o sofrimento que um irmão pode causar a sua irmã mais nova. Afinal, era ele quem me chamava de baleia quando eu engordei, mais tarde, na época da depressão da adolescência. Era ele, também, que me esnobava sempre aparecendo com um aparelho de som melhor que o meu. Porém, eu não era boazinha, brigávamos como cão e gato; eu partia para cima dele e, quando não dava conta, chorava para ele apanhar do pai. 

E foi assim que crescemos: brigamos quase a vida toda, ficávamos meses sem nos falar, mas nunca deixei de amá-lo. Nossa disputa me incentivava: eu pensava que, se ele tinha um diploma, eu também deveria ter. Se ele tinha um carro, eu também poderia ter, e assim por diante. A certa altura, eu desisti de disputar com ele porque ele sempre ganhou melhor que eu, então deixei pra lá. Depois crescemos, e tudo o que restou foi amor. Eu gostei de reencontrá-lo, durante essa brecha no espaço e no tempo, porque, quando não estávamos brigando, estávamos nos divertindo com sua criatividade. Eu gostava dos seus discos e ele até traduzia algumas músicas para mim. 

Esse retorno ao passado me lembrou do dia em que meus irmãos inventaram de fazer uma montagem de “We are the world”, que ficou muito engraçada. A letra era assim: “Dá um cobertor pra quem precisa. Dá um cobertor e um novo dia virá na sua vida”. E tudo era levado muito a sério: cada um de nós, com seu nome artístico, cantava a sua parte. A vida era tão leve! 

Opa, a festinha começou! Chegaram as amigas e amigos dos meus irmãos. Eu estava sempre ali, no quarto, querendo ser “adulta” no meio deles. Eles não se incomodavam com a minha presença, mas minha mãe ficava de olho, como um leoa, e logo me tirava de lá. Afinal, eu não era adolescente e nem podia pensar em namorar, já os meus irmãos e suas amigas não eram muito inocentes… 

Eu não sei que corpo eu tinha, mas sentia-me com meu corpo de menina e comecei a dançar com eles. “Billie Jean” no vinil e “cuba libre” circulando escondido. Foi mágico relembrar o quanto nos divertíamos. Eu não queria ir embora mais. Ficaria ali, viveria tudo de novo. “Call me”, agora, e um chamado do lado de fora da brecha. Tapei os ouvidos, queria curtir minha pré-adolescência com meus irmãos adolescentes. 

Outro chamado. Não, era só “Call me” agitando a festinha, disse a mim mesma, mas, então, ela entrou no quarto, e eu paralisei. Era ela, com seu vestido vermelho de bolinhas brancas, sombra verde e rosa, tão na moda naquela época, e o batom escuro que usava escondido da mãe. Era ela, distraída, tentando entrar despercebida na festinha, aproveitando-se do jogo de luz. 

Era ela, era eu! Sempre querendo ser adulta antes de tempo e, no presente, querendo ser criança de novo. Sorri para mim sem saber se eu me olhava ou não, pois vi que entrou rapidamente e paralisou o olhar também. Porém, logo em seguida ouvi a leoa rugindo atrás da porta: saia já desse quarto! 

Meu coração palpitou exasperado. Ela, que era eu, olhou para trás, e eu também olhei na direção da voz, mas não consegui ver minha mãe. Tentei alcançá-la, só queria uma rápida olhadinha. “Call me”. Não, eu não podia voltar ainda, insisti para o tempo, consumida na brecha que me arrastava. Então, escutei o chamado do presente mais uma vez, acordando, aflita, em meu quarto; ouvindo, então, a propaganda do YouTube se intrometendo na minha playlist de músicas dos anos oitenta.


	

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